Demanda artificial na política?

Deu no Estado:

“O senador Jorge Viana (PT-AC) ocupou nessa tarde a tribuna do plenário para defender a aprovação do regime de urgência para o projeto que tipifica o ato de terrorismo no Brasil. Para o senador, a morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, foi exatamente isso: consequência de um ato terrorista.”

Aí está um exemplo de criação de demanda artificial na política: partido de esquerda (PT) quer aprovar uma lei absurda, que tipifica o “crime de terrorismo”, usando, como pretexto, uma conduta já tipificada como crime, cometido por um Black Bloc, cujo grupo é “curiosamente” apoiado pelo PSOL, outro partido de esquerda, co-irmão do PT.

Na verdade, só querem aprovar esta lei para proibir manifestações pacíficas e legítimas durante a Copa, para o PT não passar vergonha no exterior. Como se isso fosse pior que passar vergonha dentro da própria casa.

A esquerda incentiva um comportamento abominável para, em seguida, propor uma lei que o proíba, e que proíba também comportamentos democráticos paralelos, que lhe custariam caro politicamente.

Cotas racistas

Do site do Ipea:

“Com o objetivo de debater a relevância da ação afirmativa de reserva de vagas para a população negra em concursos públicos do Governo Federal, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) realizará o seminário ‘Cotas no Serviço Público Federal’. O evento acontece nesta terça-feira, 11, às 17h, no Plenário 16 da Câmara dos Deputados.”

Clicando nos links do Ipea, verifica-se que o tal “seminário” apresenta apenas uma posição (a oficial), que naturalmente é a favor do projeto de lei. Não haverá participação de quem seja contrário. Eis o nível do debate “democrático”.

Não obstante, a notícia diz que o governo planeja aprovar a lei no Congresso antes do Carnaval. Sem um debate público sobre o assunto. Sem consultar a sociedade civil e a opinião pública.

As tais ações afirmativas são discriminatórias e ferem o princípio da isonomia. Foram modinha nos EUA por um tempo, mas já foram descartadas pelos americanos. É a esquerda americanizado a política nacional (apesar de serem contra o “imperialismo yankee”).

A quem desejar ler mais sobre o assunto, recomendo um livro de Thomas Sowell chamado “Affirmative Action Around the World”.

http://www.amazon.com/Affirmative-Action-Around-World-Empirical/dp/0300107757

Sou a favor, pessoalmente, de quotas SOCIAIS para as universidades, para que pessoas menos favorecidas possam ter mais chances de adquirir conhecimento e concorrer no mercado de trabalho.

Quotas raciais são racistas e discriminatórias, há pobres das mais diversas etnias (negros, brancos, índios, etc.). Qualquer tipo de cota para o serviço público não faz o menor sentido.

Enfim, é um assunto complexo, mas o necessário debate a seu respeito é praticamente inexistente.

Pensamento binário

Um dos problemas do debate político atual é o chamado pensamento binário. A pessoa é “de esquerda” ou “de direita”. Se o indivíduo não vota no PT, automaticamente é catalogado como eleitor/defensor do PSDB. E vice-versa. Grande falácia. Em primeiro lugar, porque o suposto eixo político esquerda-direita não existe mais, não é linear. O eixo político é multidimensional, 3D ou 4D, e engloba aspectos como progressismo-conservadorismo, autoritarismo-liberalismo, coletivismo-individualismo, etc. Eu não voto no PT, tampouco no PSDB. Numa classificação européia, o PT seria um partido de “esquerda”, e o PSDB seria de “centro-esquerda”.

Não há partidos liberais no Brasil. Não há partidos conservadores no Brasil. Por este motivo o debate politico é tão pobre. O avanço civilizatório e o progresso democrático são resultado de pensamentos conflitantes, de teses e antíteses, com a formação de sínteses. Isso não existe no Brasil. Só há um lado no debate, ou seja, não há debate. Quando um petista tenta “justificar” o Mensalão com a pergunta “mas e o mensalão tucano/mineiro?”, comete a falácia de induzir que aqueles que condenam o Mensalão do PT, em tese, estariam defendendo o mensalão tucano/mineiro.

Qualquer cidadão com o mínimo de honestidade moral condena qualquer tipo de mensalão ou esquema criminoso, independentemente da bandeira que leva. O PT e o PSDB são dois lados da mesma moeda. Ausência de programas, luta desenfreada pela permanência no poder e associação espúria com oligarquias históricas que atrasam o desenvolvimento brasileiro. Tudo isso associado aos três principais problemas culturais do Brasil: incompetência, corrupção e impunidade. Ingênuos daqueles que vislumbram qualquer tipo de mudança a curto prazo.

IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aparelhada?

Muito se fala sobre o aparelhamento do Estado e o inchaço da máquina pública na gestão do PT (2003-2014). Aumento expressivo do número de ministérios, criação de milhares de cargos em comissão e dezenas de milhares de vagas em concursos públicos. Apenas estas últimas levam em conta, em tese, a meritocracia. Aqueles que melhor se preparam têm mais chances de serem aprovados. A meritocracia é uma das bandeiras defendidas pelo liberalismo.

teta_publica_juniao

Onde não há meritocracia há privilégios. Na escolha de ministros e funcionários para cargos em comissão, o governo tem discricionariedade de escolha. Ou seja, o governo discrimina. Do ponto de vista da ética, tais escolhas do governo podem ser questionadas, já que critérios partidários e ideológicos frequentemente se sobrepõem a critérios de capacidade, formação, experiência, competência e eficiência. É o caso da escolha de um Ministro de Estado pelo simples fato de seu partido ser da base de sustentação governista. Irrelevante é, para o governo, se tal Ministro possui conhecimento e competência para atuar na área de seu ministério.

Outro exemplo é o caso do direcionamento ideológico das vagas. Para fazer parte de um governo que defende total e irrestrita ingerência do Estado na economia, um economista de viés liberal enfrentará inúmeros obstáculos.

Analisemos a Chamada Pública nº 013/2014, publicada ontem no site do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Tal chamada oferece vaga a um pesquisador mestre, para trabalhar no “Projeto ‘Segurança Pública no Brasil em 2023: Uma Visão Prospectiva’”.

No processo seletivo, o candidato deverá apresentar um projeto que conterá a “contextualização da inserção nos eixos temáticos do IPEA do projeto proposto” (item 3b do regulamento).

Analisemos agora as ementas de alguns eixos temáticos:

“2. Macroeconomia para o Desenvolvimento

O movimento das forças de mercado, por si só, não é capaz de levar economias
capitalistas a situações socialmente ótimas de emprego, geração e distribuição de renda. Desta maneira, o pleno emprego dos fatores produtivos (como a terra, o capital, o trabalho e o conhecimento) passa a ser interesse e objetivo coletivos, apenas possível por um manejo de políticas públicas que articule virtuosamente os diversos atores sociais em torno de um projeto de desenvolvimento nacional sustentável e includente.

3. Fortalecimento do Estado, das Instituições e da Democracia

Não existe experiência exitosa de desenvolvimento que tenha prescindido do Estado como ator estratégico nos processos nacionais de construção econômica, social e política. Paralelamente, por mais que as economias e alguns processos sociopolíticos estejam internacionalizados, importantes dimensões da vida social permanecem sob custódia das políticas nacionais, afiançando a idéia de que o Estado-Nação é ainda a principal referência no que se refere à regulação das diversas dinâmicas que se desenrolam em seu espaço territorial. Sendo assim, é imprescindível refletir sobre os arranjos institucionais mais adequados para conjugar Estado, mercado e sociedade em torno de um modelo de desenvolvimento includente, soberano e sustentável, que seja a meta da Nação brasileira e o objetivo maior das políticas públicas.”

Qualquer aluno do terceiro ano de Economia consegue identificar o viés desenvolvimentista, keynesiano e intervencionista dos pontos 2 e 3 acima descritos. Ou seja, o candidato terá chance de obter a vaga, desde que esteja ideologicamente alinhado ao IPEA. Desde que vista o cabresto esquerdista do coletivismo e da intervenção do Estado na economia.

Ora, o IPEA é um instituto de pesquisa. Um instituto de pesquisa tem como função, em tese, fomentar o desenvolvimento científico. E o método científico amplamente aceito pela academia (o método da falseabilidade de Sir Karl Popper) parte da premissa de que toda tese, para ser científica, deve ser refutável.

O IPEA pressupõe diversas teses (dogmáticas) que já foram refutadas inúmeras vezes por autores liberais (Hayek, Mises, etc.). Não obstante, tais teses servem como “filtro” para a escolha de candidatos à vaga de pesquisador. O direcionamento ideológico é visível, e serve apenas para comprometer o progresso científico, cujo objetivo é a busca da verdade, e não a comprovação de teses carregadas de forte componente ideológico.

É uma pena que um instituto de grande tradição e respeito, como o IPEA, deixe de lado sua função acadêmico-científica para servir apenas de avalista de teses ultrapassadas da esquerda intervencionista.

Os Ombros Suportam o Mundo

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

Carlos Drummond de Andrade